3. BRASIL 2.10.13

1. UM CENRIO DIFERENTE
2. TODOS DO MESMO LADO
3. OPERAO PORTO SEGURO
4. O OUTRO MENSALO
5. POR ENQUANTO,  S PROPAGANDA
6. ESTAVA TUDO COMBINADO
7. MAS QUE CONFUSO!
8. ISCAS DE POLTICO

1. UM CENRIO DIFERENTE
Pela primeira vez em 25 anos, a eleio presidencial no deve se resumir a uma previsvel disputa entre petistas e tucanos.
DANIEL PEREIRA E DANIELA LIMA

     Nas ltimas cinco eleies presidenciais, a disputa se resumiu a um Fla-Flu entre PT e PSDB. Desde o incio das campanhas, sabia-se que o vencedor seria de um desses dois partidos  e que as demais legendas participariam como meras coadjuvantes. A polarizao entre petistas e tucanos era to cristalizada que at os argumentos esgrimidos nos debates se repetiam votao aps votao. Em 2006 e 2010, por exemplo, os petistas repisaram a cantilena de que os tucanos, caso vitoriosos, privatizariam a Petrobras e o Banco do Brasil. Era balela, mas o PSDB no conseguiu, nas duas ocasies, rechaar tal ataque nem mostrar aos eleitores os benefcios decorrentes das privatizaes realizadas no governo Fernando Henrique. O quadro era sempre previsvel quanto aos protagonistas, s armas usadas por eles e  indigncia dos debates. Em 2014, pela primeira vez em 25 anos, esse cenrio pode mudar. Se confirmadas as candidaturas do ex-governador Jos Serra e da ex-ministra Marina Silva, pelo menos cinco nomes competitivos disputaro o Palcio do Planalto. Essa mudana abrir a possibilidade de uma campanha mais rica em contedo, em substituio  escolha plebiscitaria que imperou nos ltimos anos. 
     As candidaturas da presidente Dilma Rousseff, do senador Acio Neves (PSDB) e do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, esto encaminhadas. Falta a definio de Marina e Serra, que daro sinais claros de seus planos nesta semana, quando acaba o prazo de filiao para quem pretende se candidatar em 2014. Segunda colocada nas pesquisas e depositria de quase 20 milhes de votos na corrida presidencial de 2010, Marina luta para montar o prprio partido, a Rede Sustentabilidade, mas enfrenta dificuldades para convencer o Tribunal Superior Eleitoral a aprov-lo. A ex-ministra no conseguiu entregar ao TSE as 492.000 assinaturas de apoio  Rede exigidas pela legislao. Ela alega que esse nmero no foi alcanado porque cartrios eleitorais, sob a batuta de adversrios polticos, boicotaram a certificao das assinaturas  rejeitando-as sem fundamento ou, simplesmente, demorando para analis-las. "Ser um escndalo se a Rede no for avalizada, depois da criao do Pros e do Solidariedade", disse Marina a aliados. Ela se referia ao 31 e ao 32 partidos do pas, autorizados a funcionar apesar de fartas evidncias de que entregaram assinaturas de apoio fraudadas ao TSE. 
     O grupo poltico de Marina diverge sobre o caminho a ser trilhado caso a Rede no saia do papel. Uma ala defende a ideia de que ela no se filie a outra sigla e  em nome da coerncia com o discurso que prega um novo jeito de fazer poltica  abdique da corrida eleitoral. Outra quer que Marina entre num partido qualquer e, assim, no preo da sucesso. O nanico PEN j disse que est de portas abertas para receb-la. Tirando a presidente Dilma, os pr-candidatos j conhecidos torcem para que Marina dispute a eleio. Sem ela, a chance de segundo turno cai drasticamente. No   toa. No auge das manifestaes populares, a ex-ministra se mostrou a opo preferencial dos eleitores que, naquela ocasio, desistiram de votar em Dilma. Caso Serra tambm seja candidato, a probabilidade de segundo turno se torna ainda maior. Mas o ex-governador, como de costume, est ensimesmado em seus dilemas. Para concorrer  Presidncia, ele ter de deixar o PSDB e se filiar a outra sigla  o PPS est  disposio. No  uma troca fcil. Serra  um dos fundadores do PSDB e disputou o Planalto duas vezes pelo partido, sem sucesso. Caso opte pela mudana, sair sozinho, sem a companhia de escudeiros fiis. 
     Serra tambm hesita em abraar a candidatura porque, como nome do PPS, ter pouco tempo de propaganda na TV e recursos escassos para financiar a campanha. Nada que desanime o deputado Roberto Freire, presidente do PPS: "As pesquisas mostram que o Serra representa uma parcela significativa da sociedade brasileira. Ele no pode se omitir. Est em jogo a chance de derrotar este governo, que atenta contra a democracia e as instituies republicanas". Acio sabe desse flerte  e da disposio de Serra de deixar o PSDB. Na tera-feira, Acio conversou a ss com Serra. Disse a ele que poderia concorrer ao que quisesse pelo PSDB, menos, obviamente,  Presidncia. Prometeu-lhe ainda poder na engrenagem partidria. O encontro foi precedido por uma intensa troca de telefonemas entre os dois, mas se mostrou incapaz de alterar o humor de Serra. No PSDB, so poucos os que apostam que Serra trabalharia com afinco por Acio numa campanha presidencial. 
     Para Dilma e o ex-presidente Lula, o ideal seria a reedio de uma eleio plebiscitaria entre petistas e tucanos.  Marina e Eduardo Campos impedem a concretizao desse sonho. Hoje, o socialista  a principal fonte de preocupao do PT. Apesar de ainda patinar nas pesquisas, Campos se destaca como o pr-candidato com melhor trnsito entre empresrios, governistas insatisfeitos e oposicionistas. Se chegasse ao segundo turno, teria condies de reunir todos num mesmo barco com certa facilidade. O PT teme esse potencial  e passa recibo. Na semana passada, a direo do partido instou o governador a aderir ao plebiscito entre "ns" e "eles" e desistir da candidatura presidencial, sob pena de se tornar um inimigo pblico. Campos no deu trela  ofensiva. J Lula, bem mais safo do que seus correligionrios, agiu de forma diferente. Em vez de esticar a corda, manteve o dilogo com o governador. A lgica  muito simples: Lula vislumbra continuar no poder caso Campos derrote Dilma, no importa se com ou sem a companhia de seu exrcito de petistas. A um ano das eleies, como se v, o cenrio comporta muitas possibilidades. 

DILMA ROUSSEFF 
PT
38% intenes de voto *
CENRIO - Com o apoio de Lula, tende a formar a maior coligao eleitoral. ndices econmicos, como o nvel de emprego, e o comando da mquina pblica tambm fazem dela a favorita na disputa
OBSTCULOS - Fracassou no desafio de modernizar a infraestrutura do pas, tem poucos resultados a mostrar e enfrenta a desconfiana dos aliados, inclusive dos petistas

MARINA SILVA
(partido indefinido)
16% intenes de voto *
CENRIO - Depois de receber quase 20 milhes de votos na eleio passada,  apontada como a principal beneficiria do descontentamento que ganhou as ruas do pas. Seria a depositria natural de votos pela mudana
OBSTCULOS - A tendncia  que concorra sem aliados, com pouco tempo na propaganda eleitoral e recursos mais modestos, em comparao com os adversrios, para financiar a campanha

JOS SERRA
(partido indefinido)
12% intenes de votos *
CENRIO - Duas vezes candidato a presidente, entraria na disputa com um patrimnio considervel de apoio popular. Tem laos estreitos com setores importantes de grandes partidos, como o PMDB do Rio Grande do Sul, que podem trabalhar por ele
OBSTCULOS - Dificilmente fechar aliana com alguma legenda de peso em 2014. Como Marina, dispor, portanto, de pouco tempo na propaganda eleitoral

ACIO NEVES
PSDB
11% intenes de voto *
CENRIO -  jovem e tem uma imagem consolidada de bom gestor. Aposta na pulverizao das candidaturas para chegar ao segundo turno
OBSTCULOS - Principal concorrente da oposio, enfrenta dificuldades  e a concorrncia de outros candidatos  para fechar uma ampla coligao. Ainda procura um discurso para entoar na campanha

EDUARDO CAMPOS
PSB
4% intenes de voto *
CENRIO - Jovem e com imagem de executivo eficiente, conta nos bastidores com a torcida entusiasmada de todos os setores que resistem  favorita Dilma, entre empresrios, governistas e oposicionistas
OBSTCULOS - Tem pouca margem para montar uma coligao, disputando o apoio de partidos principalmente com Acio. Carece de palanques fortes em grandes colgios eleitorais

(*O Ibope fez duas simulaes. Em uma delas, Serra  o nome do PSDB. Na outra, Acio representa o partido. Quando Serra  o concorrente, s o percentual de Dilma muda, para 37% )
COLABOROU ADRIANO CEOLIN


2. TODOS DO MESMO LADO
O Partido da Repblica, um dos pivs do mensalo, abre as portas para Jos Roberto Arruda, protagonista de outro barulhento escndalo  e ambos vo se juntar ao PT.

     Em novembro de 2009, vdeos apreendidos pela polcia revelaram uma das faces mais dissimuladas da poltica brasileira. Em um deles, o ento governador do Distrito Federal, Jos Roberto Arruda, foi filmado recebendo, acariciando e embolsando um volumoso mao de dinheiro desviado dos cofres pblicos. Um escndalo em qualquer parte do mundo  at mesmo no Brasil. Tanto que Arruda renunciou ao mandato, ficou preso durante dois meses e foi expulso do seu partido, o DEM. Seria o fim da carreira de qualquer poltico  mas no no Brasil e no para o ex-governador. Protagonista do caso, Arruda se prepara para voltar  cena poltica em 2014. Ele pretende se candidatar a deputado, tem em mos pesquisas que lhe asseguram uma eleio tranquila e, por isso,  alvo da cobia de vrias legendas. O ex-governador j informou a "correligionrios que vai anunciar nesta semana sua opo pelo PR, partido que esteve no epicentro do mensalo, o maior caso de corrupo da histria do pas, que tem seu principal lder, o deputado Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e dez meses de priso. Uma simbiose, portanto, aparentemente natural, mas de difcil compreenso para quem desconhece alguns costumes da poltica nacional. 
     Ao se filiar ao PR e disputar as eleies. Arruda estar se integrando  chamada base aliada do governo Dilma Rousseff, em que cerrar fileiras com os antigos adversrios e algozes do PT. Sua presena entre os petistas, porm, no vai gerar constrangimento a nenhum dos lados. No plano local, houve at um pacto entre os ex-desafetos. As pesquisas mostram que o ex-governador seria eleito hoje com relativa folga a qualquer cargo que disputasse. Isso, no entanto, dependia de um detalhe importante: as contas do seu governo estavam na iminncia de ser rejeitadas, o que o poria na condio de ficha-suja, automaticamente impedido de concorrer s eleies. Selou-se ento o acordo. O PT e seus aliados aprovariam as contas do ex-governador e, em troca, Arruda apoiaria a reeleio do petista Agnelo Queiroz. "Eu me sinto muito pequeno com tudo isso. Infelizmente, partido poltico no Brasil  uma empresa privada mantida com dinheiro pblico", lamenta o deputado Ronaldo Fonseca (PR-DF), destitudo do cargo de presidente local da legenda para dar lugar  turma do ex-governador. 
HUGO MARQUES


3. OPERAO PORTO SEGURO
A histria se repete. Agora foi o ex-ministro Jos Dirceu, condenado por corrupo, que arrumou um belo emprego para a atual namorada  no servio pblico, claro.
ROBSON BONIN E ADRIANO CEOLIN

     Garantia de estabilidade, altos salrios e uma rotina confortvel. O servio pblico no Brasil  um mundo restrito ao qual s existem duas formas de chegar. A primeira  alternativa da maioria dos brasileiros  requer estudo, sacrifcio e dedicao para conseguir uma vaga via concurso pblico. J a segunda, aberta a poucos privilegiados, exige apenas ter os amigos certos nos lugares certos. A recepcionista Simone Patrcia Tristo Pereira chegou perto disso justamente por essa segunda via. Dona de competncias profissionais desconhecidas, ela conquistou um emprego invejvel: desde agosto ocupa o cargo de especialista em marketing de relacionamento no Instituto Legislativo Brasileiro (ILB), rgo de capacitao do Senado Federal. Com salrio de 12.800 reais, horrio flexvel e pouco ou quase nada para fazer, a moa no precisou se esforar muito para chegar l. Bastou acionar as pessoas certas  ou, no caso dela, a pessoa certa: o ex-ministro Jos Dirceu, ru condenado a dez anos e dez meses de priso por corrupo ativa e formao de quadrilha no escndalo do mensalo. O casal assumiu meses atrs um namoro que comeou h alguns anos. 
     Empregar parentes, amigos e outras categorias de relacionamento na mquina pblica sempre foi uma prtica dos polticos pas afora. Instalados no governo federal h mais de uma dcada, os petistas no so diferentes. s vsperas do reinicio do julgamento, diante da hiptese de ser preso, o ex-ministro passou a resolver algumas questes pessoais. Distribuiu tarefas entre familiares, assinou procuraes, organizou o que foi possvel prevendo o pior. Lobista dos mais bem-sucedidos, com portas abertas nas maiores empresas privadas do pas, tambm precisava assegurar um pouco de tranquilidade  nova namorada, com quem tem uma filha. Nada melhor que um emprego no Senado Federal. Simone foi nomeada no dia 8 de agosto. A especialista em marketing de relacionamento tem uma rotina prpria. Ela costuma chegar ao trabalho por volta de 11 horas (o expediente normal comea s 8 horas) e passa o resto da manh trocando mensagens pelo celular ou vasculhando futilidades na internet. Ao  meio-dia, sai para o almoo, que no costuma terminar antes das 15h30. Na volta, retoma o passeio virtual pela internet e a conversa com amigos no celular at decidir tomar o rumo de casa, aproximadamente s 17 horas (o expediente normal termina s 18 horas). Na repartio, j ficou claro que Simone no  uma funcionria qualquer, e no apenas pelo horrio privilegiado. 
     No primeiro dia de trabalho, ela foi apresentada aos colegas pelo brao-direito do presidente do Congresso e atual diretor-geral do Senado, Helder Rebouas. Uma deferncia que no se deve ao acaso nem a uma coincidncia. Entre os 6200 funcionrios do Senado, Simone poderia, de fato, ser mais uma das muitas boas profissionais que conseguiram o cargo pelos prprios mritos. Ao ser indagada,  exatamente essa a explicao da moa: "Conheo o Z Dirceu tem muito tempo. Procura na internet que voc vai ver (quem indicou). J trabalhei na Cmara, no governo do Tocantins. Se estou todo esse tempo (em cargos de confiana),  tudo via ele? Imagina". Logo depois de ser abordada pela reportagem, na quinta-feira passada, Simone mostrou outra vez que no  uma qualquer. Ela foi ao gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros, um lugar acessvel a um grupo restrito de servidores. "Preciso muito falar com o senhor!", disse ela. Calheiros chamou-a pelo nome e pediu que aguardasse um pouco. A funcionria foi atendida, mas no se sabe o que foi discutido na reunio. Questionado sobre ter sido o ex-ministro Jos Dirceu o responsvel pela indicao da namorada, o senador desconversou: "No sei quem foi, mas vou procurar descobrir". Seu brao-direito, aquele que ciceroneou Simone no primeiro dia de trabalho, reagiu de maneira ainda mais esquisita: "No sei nada sobre isso. Nem sei quem  ela". Renan e Dirceu mantm uma excelente relao. 
     A fuso entre relaes pessoais e dinheiro pblico est na raiz de muitos escndalos polticos. O mais recente deles envolveu a ex-chefe de gabinete da Presidncia da Repblica em So Paulo Rosemary Noronha. A Polcia Federal descobriu que ela se valia do cargo para fazer todo tipo de negociata  e utilizava a seu favor a proximidade que tem com o ex-presidente Lula, com quem mantm at hoje uma slida amizade, iniciada na dcada de 80. Enquanto comandou o gabinete, entre 2007 e 2012, ela se aproveitou desses laos para patrocinar lobbies, traficar influncia e ajudar uma quadrilha que comercializava facilidades no governo. Rose foi indiciada por formao de quadrilha, trfico de influncia e corrupo passiva e terminou banida do servio pblico na semana passada. O exemplo da amiga de Lula, pelo visto, no serviu de lio a outros amigos e amigas.


 4. O OUTRO MENSALO
Sai a primeira condenao na ao que envolve tucanos.

     O ex-diretor financeiro do BancoRural Nlio Brant Magalhes foi sentenciado a nove anos e nove meses de priso por gesto fraudulenta e temerria de instituio financeira, na primeira condenao no processo do chamado "mensalo tucano". O esquema teria desviado recursos pblicos para a campanha  reeleio do ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998. Pr envolver o publicitrio Marcos Valrio e emprstimos duvidosos, os investigadores suspeitam que ele tenha servido de ensaio para o modelo adotado pelo PT quatro anos depois. A Justia absolveu outras quatro pessoas por falta de provas, e o ex-diretor pode recorrer em liberdade. Embora seja cronologicamente anterior ao mensalo petista, o caso de Minas s veio  tona durante as investigaes do escndalo de corrupo no governo federal. 
     De acordo com o Ministrio Pblico Federal, ao menos 3,5 milhes de reais foram desviados do governo de Minas para a candidatura de Azeredo. Valrio fazia emprstimos no Banco Rural e repassava os recursos para a campanha do tucano. Em troca, firmava contratos de publicidade com o governo, no prestava os servios e usava parte do dinheiro para pagar os emprstimos. Como tem foro privilegiado, Azeredo, atualmente deputado federal, responde  ao no Supremo Tribunal Federal. A previso  que ela seja julgada no ano que vem.


5. POR ENQUANTO,  S PROPAGANDA
 melhor um mdico cubano do que mdico nenhum. Mas, sem autorizao para iniciar os atendimentos, tudo o que eles fizeram at agora foi servir de cabos eleitorais do PT.
ALEXANDRE ARAGO, DE MELGAO (PA), E KALLEO COURA, DE TUPANATINGA (PE)

     Tupanatinga, no agreste de Pernambuco, tem 25.000 habitantes e menos de 1000 carros. Para chegarem l, as mdicas cubanas Norka Imberd e Norma Elas sacolejaram na estrada por quatro horas e meia desde o Recife. Esto instaladas h quase uma semana em um dos dois nicos hotis da cidade, mas ainda no tiraram o estetoscpio da bagagem. Como continuam sem autorizao de trabalho no Brasil, aproveitaram o tempo livre para desfilar sorridentes ao lado do ainda mais sorridente prefeito Manoel Tom (PT). "Queria saudar aqui duas pessoas importantssimas que o municpio acaba de receber", discursou ele. "Elas vieram l de Cubas numa misso para melhorar a sade de nossa cidade." O fato de o prefeito no conseguir acertar o nome do pas das doutoras no significa que ele ignore a fora poltica do programa do governo federal que as trouxe a Tupanatinga  o Mais Mdicos. Prova disso  que j mandou at pintar um dos postos de sade da cidade de vermelho e branco, as cores do seu partido. 
     Em Melgao, no Par, cidade que fica no meio do caminho entre Belm e Macap (AP), as mdicas cubanas tambm foram a grande atrao. Na cidade, de 26.000 habitantes, a maior parte dispersa em vilas de at 1000 pessoas, os problemas mais comuns so picadas de animais peonhentos e doenas tpicas da regio amaznica  tuberculose, hansenase e malria.  nesse municpio que as xars Maribel Saborit e Maribel Hernndez vo trabalhar nos prximos anos. 
     O Mais Mdicos foi uma resposta da presidente Dilma Rousseff s manifestaes de junho. O projeto de importar 8000 mdicos estrangeiros, metade deles de Cuba, para aloc-los em cidades carentes foi elaborado pelo ministro da Sade, Alexandre Padilha. O projeto avanava discretamente nos bastidores do governo at que o grito das ruas o acelerou. "Sade padro Fifa", diziam os manifestantes em seus cartazes. Pressionada a responder rapidamente aos protestos, Dilma decidiu anunciar a proposta e importar, no fim de agosto, 647 mdicos  400 deles, cubanos (veja na pg. 78). 
     At sexta-feira passada, apenas 232 dos 647 haviam obtido autorizao dos conselhos regionais de medicina para trabalhar. Em Pedreira (SP), a cubana Tnia Sosa chegou a se preparar para atender os primeiros pacientes, mas, impedida por colegas brasileiros, limitou-se a acompanhar o trabalho das enfermeiras. Alm da falta de documentos, os cubanos tm esbarrado na resistncia das entidades mdicas, receosas da concorrncia. Mas, se nos postos de sade do pas pouca coisa mudou at agora, na poltica, o governo Dilma j tem o que comemorar. Segundo as pesquisas, mesmo antes do incio dos atendimentos, os cubanos esto sendo bem-vistos pela populao. Os marqueteiros a servio do PT consideram que o programa foi um dos responsveis pela recuperao da popularidade presidencial. O ndice de aprovao de Dilma, estatelado em 27 pontos logo aps as manifestaes, subiu para 36% em agosto, segundo o Datafolha. Com isso, Padilha ganhou prestgio, consolidando sua  at h pouco  contestada candidatura ao governo de So Paulo. O fato de ter passado a ser chamado por Dilma de "Padilho" , segundo conhecedores dos cdigos do Planalto, claro indcio de que desfruta de novo status. 
     O programa do governo j  um tremendo sucesso do ponto de vista eleitoral  e o PT se aproveitar dele como puder. Do ponto de vista da populao, no  diferente. Para qualquer comunidade pobre, um mdico estrangeiro, tenha a formao que tiver, ser sempre melhor que mdico nenhum. Mas, se o programa resultar numa melhora no atendimento da sade, isso j  outra questo. No h exagero quando se fala que a infraestrutura precria do sistema pode prejudicar, e at tornar intil, o trabalho dos estrangeiros. Nas cidades visitadas pela reportagem de VEJA,  grande o risco de essa situao ocorrer. Em Tupanatinga, faltam medicamentos bsicos, como o antitrmico dipirona e o analgsico paracetamol. Em So Joo das Misses (MG), no  possvel fazer nem mesmo exames simples, como os de sangue ou urina. Em Melgao, a falta de antdoto para picada de aranha  uma reclamao permanente. Nas trs cidades, os mdicos locais costumam se limitar a fazer um primeiro diagnstico e encaminhar os pacientes para cidades maiores. Cada um desses municpios recebeu duas mdicas cubanas. Sem investimento em equipamentos, restar a elas apenas imitar o procedimento dos colegas  receber os pacientes para, em seguida, despach-los para a cidade mais prxima e menos precariamente equipada. 
     Mas nem a ausncia de remdios nem os problemas de estrutura ou falta de registro tm conseguido abalar o humor dos cubanos. Eles parecem encantados com a liberdade e a fartura de produtos que encontram nos mercados. Mesmo o comrcio das cidades mais pobres consegue impression-los, habituados que esto ao vazio desolador das prateleiras de Cuba. L, o salrio de um mdico  de 100 reais. Aqui, cada um recebe 10.000 reais. Ainda que a ditadura dos Castro confisque 60% desse valor, esse tipo de misso internacional , para eles, praticamente como ganhar na loteria. Na semana passada, sem ter o que fazer, as duas Maribel foram s compras no mercado e na feira de Melgaco. Norka e Norma preferiram ficar vendo TV no hotel. Por enquanto, o Mais Mdicos  apenas propaganda. Mas, como sabe o governo federal, a propaganda  a alma do negcio. E mais 2000 cubanos devero chegar at o fim do ms.
COM REPORTAGEM DE PIETER ZAUS, DE SO JOO DAS MISSES (MG)


6. ESTAVA TUDO COMBINADO
Documentos oficiais mostram que o Mais Mdicos foi concebido para enviar dinheiro  ditadura de Cuba e que o governo brasileiro escondeu o acordo durante meses.
LEONARDO COUTINHO

     Desde o colapso da Unio Sovitica, no incio dos anos 90, Cuba ficou  mngua, sem um padrinho para financiar sua ditadura comunista. Na dcada passada, esse papel passou a ser desempenhado pela Venezuela de Hugo Chvez e por outros pases latino-americanos governados por simpatizantes. Com o PT no poder, o Brasil tem contribudo sem alarde com emprstimos camaradas do BNDES e, descobre-se agora, com a importao de mdicos. Em maio passado, o ento chanceler Antonio Patriota anunciou o plano de trazer 6000 mdicos da ilha para atuar nos rinces  do Brasil. O que Patriota no disse  que o "plano" era, na verdade, um fato consumado. O acordo para a importao de mdicos cubanos j havia sido assinado no ms anterior, valendo-se de um subterfgio para no tornar pblica a verdadeira natureza do negcio. O contrato falava, em termos genricos, de uma "contratao de profissionais temporrios" e em nenhum trecho citava Cuba ou mdicos cubanos. Isso era possvel porque, formalmente, o acordo foi fechado entre o Ministrio da Sade e a Organizao Panamericana de Sade (Opas). Na prtica, a entidade vinculada  ONU era apenas a intermediria da transferncia de recursos dos contribuintes brasileiros para a ditadura cubana (o que tambm no era dito no acordo original). 
     Tanto esforo para omitir Cuba do acordo intermediado pela Opas se explica pela reao negativa da opinio pblica brasileira, especialmente das associaes mdicas, ao anncio feito por Patriota. Afinal, a importao de mdicos cubanos viola uma srie de leis brasileiras, alm de pr em risco a sade da populao por causa da qualificao duvidosa dos profissionais. Criticado pelo "plano", o governo federal deu sinais de que recuaria. O ministro da Sade, Alexandre Padilha, chegou a dizer que a prioridade no era trazer mdicos cubanos, mas portugueses e espanhis. Puro diversionismo, pois nos bastidores os trmites burocrticos para a contratao dos cubanos seguiam em ritmo acelerado. Em meio aos protestos de junho, a presidente Dilma Rousseff ressuscitou o tema, prometendo na TV "trazer de imediato milhares de mdicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS". Da nasceu o programa Mais Mdicos, sob medida para esquentar o acordo j firmado para importar profissionais cubanos. A abertura de inscries para mdicos de outros pases e de brasileiros que trabalham no exterior foi s uma maneira de legitimar a vinda dos cubanos, pois j se sabia que estes viriam em maior nmero. O documento assinado por Padilha em 22 de agosto foi apenas um termo de ajuste do acordo assinado em abril na surdina. Eis por que trs dias depois os primeiros 400 mdicos cubanos j desembarcavam  no Brasil. Uma semana antes, o governo brasileiro havia pago 11,5 milhes de reais  Opas, valor que coincide com o custo das passagens. 
     Um dos arquitetos da triangulao Brasil-Opas-Cuba foi o dentista Joaqun Molina, ex-coordenador da Cooperao Tcnica Internacional, o departamento do Ministrio da Sade de Cuba responsvel pela exportao de mo de obra mdica. Em 29 de marco de 2012, Molina assumiu o posto de representante da Opas no Brasil  um dia antes de a entidade firmar com Cuba um convnio, que ele ajudou a negociar, para intermediar a venda de servios de sade da ilha. A misso de Molina em Braslia era bem definida e servia com perfeio aos planos de Padilha (veja a reportagem na pgina 74). Em 17 de dezembro, Molina protocolou no Ministrio da Sade o projeto Fortalecimento da Ateno Bsica no Brasil, em que a Opas pedia quase 512 milhes reais para ajudar o pas a combater "as iniquidades sociais e limites de acesso aos servios de sade". Antes do Natal, o documento venceu cinco degraus da burocracia, mais rpido do que qualquer outra proposta feita ao ministrio na mesma data. Em fevereiro, a diretora da Opas, a dominiquense Carissa Etienne, veio a Braslia para dar mais um empurrozinho na "cooperao mdica" com Cuba, pela qual a Opas viria a receber 24,3 milhes de reais de comisso. 
     Em meio s mentiras e dissimulaes envolvendo a contratao de mdicos cubanos, h um dado intrigante: o valor de mais de 500 milhes de reais (dos quais 100 milhes foram pagos no ms passado e os outros 400 milhes j foram reservados no Oramento federal) pleiteado pela Opas em dezembro de 2012  rigorosamente o mesmo do contrato-encenao feito por Padilha oito meses depois para a importao de 4000 mdicos. Patriota, porm, havia anunciado em abril a vinda de 6000 cubanos. Ou seja, o Brasil est pagando a mesma quantia por menos profissionais. Considerando a m qualidade do ensino mdico em Cuba, talvez seja melhor no reclamar. 

A UNIVERSIDADE DA MILITNCIA
No caminho inverso ao dos mdicos enviados ao Brasil sob o jugo da ditadura cubana, organizaes de esquerda brasileiras despacham militantes para passar pela doutrinao ideolgica na ilha. Criada h quinze anos por Fidel Castro, a Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) recebe exclusivamente estrangeiros indicados por partidos polticos e movimentos de esquerda. No Brasil, a seleo dos estudantes  feita entre militantes do PT, do PCdoB e do MST, assim como na Colmbia a peneira cabe aos narcoterroristas das Farc. O principal quesito para ganhar uma bolsa  ter conexes com organizaes de esquerda e vocao para nutrir o proselitismo ideolgico castrista. Atualmente a Elam tem alunos recrutados em 113 pases. Em um vdeo produzido por bolsistas brasileiros, um estudante resume os critrios de seleo do MST: "A pessoa vai para So Paulo, passa por um processo preparatrio, onde (sic) vai ser avaliada durante o curso no s pelo pessoal do movimento, mas tambm pela prpria embaixada cubana". Para garantir que os formandos voltem ao seu pas para disseminar a revoluo, os egressos da Elam no podem exercer a medicina em Cuba.  uma escola, como reconhece uma das brasileiras entrevistadas no vdeo, de revolucionrios comunistas. Apenas isso. 

O socialismo  o futuro. Espero voltar para o meu pas e plantar esta semente revolucionria que estou vivenciando aqui.  Estudante brasileira no vdeo Cuba, uma Escola de Solidariedade.


7. MAS QUE CONFUSO!
Sim, presidente, a internet  um fenmeno sem igual justamente por ser incontrolvel. Perigos, h. Mas desastre mesmo seria submet-la a governos, polticos e burocratas.
ETHEVALDO SIQUEIRA

     A internet como a conhecemos  aberta, livre e democrtica  est sempre sob ameaas. Nos debates principais da Conferncia Mundial de Telecomunicaes Internacionais, realizada em Dubai, nos Emirados rabes Unidos, em dezembro do ano passado, um grupo de pases politicamente fechados e de economia centralizada, entre eles Rssia, China e naes rabes, verbalizou a proposta de criar um organismo internacional com "poder de regulao e de fiscalizao da internet". A reunio, felizmente, acabou sem que essa proposta liberticida fosse votada. Mas ela no pode ser facilmente enterrada. Na semana passada, foi exumada pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de abertura dos trabalhos da Assembleia-Geral das Naes Unidas, em Nova York. Dilma apontou, com razo e acerto, os perigos inerentes  natureza e  extenso da rede planetria de computadores interligados. 
     Mas, se o diagnstico foi benfeito, a soluo apontada pela presidente do Brasil foi constrangedora. Dilma insistiu na tese da criao de um organismo mundial capaz de controlar a internet. Assim, sabendo ou no, ela deu voz aos grupos totalitrios que, de maneira silenciosa e subterrnea, vm travando uma guerra contra a liberdade na internet. Os defensores dessa proposta, que, alis,  tecnicamente inaplicvel sem que se promova uma deformao ruinosa na natureza da internet, sonham que a UIT, a agncia das Naes Unidas para as telecomunicaes, seja transformada na megaburocracia reguladora da internet. Se isso um dia vingar, o resultado imediato ser a submisso da rede aos mecanismos de censura e controle dos governos. Enfim, um desastre e uma traio inaceitvel aos princpios libertrios que fazem da internet o mais amplo fenmeno de integrao e liberdade de expresso jamais divisado e criado pela humanidade. 
     No  difcil imaginar os inconvenientes de submeter a internet aos humores de ditadores e governantes centralizadores de todos os matizes. Em mbito domstico, a tentao de controlar a rede vai despertar grande interesse de partidos e burocratas afeitos ao aparelhamento das comunicaes e, claro, ao bloqueio do livre uso da rede por opositores. No cenrio internacional, a eventual imposio de regulamentos restritivos, elaborados e supervisionados por uma entidade internacional burocrtica, fechada e pouco transparente, asfixiaria a internet. O mais assustador  que a grande maioria dos usurios da internet no mundo ignora as ameaas que rondam a rede. Desde sua criao, em 1991, a internet tem sido coordenada exclusivamente por entidades civis e acadmicas. Ela funciona muito bem assim. O principal organismo civil que garante o funcionamento livre e eficaz da rede  a Corporao da Internet para Atribuio de Nomes e Nmeros, conhecida pela sigla em ingls Icann, de Internet Corporation for Assigned Names and Numbers. Essa organizao tem sede na Califrnia, e a ela cabe disciplinar e controlar as regras tcnicas de acesso e atribuio de endereos de sites e de usurios. Seus membros fazem isso com inteira transparncia e justia. A eles nunca ocorreu fiscalizar ou policiar contedos. Essa  sua grande virtude. E  por essa virtude que a Icann  combatida por burocratas centralizadores de pases totalitrios ou de governos centralizadores  entre eles, infelizmente, o Brasil. 
     A proposta de acabar com a Icann e dar  UIT o poder regulador da internet no mundo foi recebida com desconfiana pela maioria dos pases democrticos e teve como resposta a mobilizao de centenas de entidades, ONGs, governos e instituies civis, com um grande nmero de sites que passaram a denunciar os riscos que poder significar a estatizao da internet. Nos Estados Unidos, universidades, partidos polticos e a prpria agncia reguladora de comunicaes, a Federal Communications Commission (FCC), defendem o modelo atual da internet e combatem a mudana proposta pela Rssia, China, pases rabes e, infelizmente, apoiada pelo Brasil. Por justia,  preciso reconhecer  e vamos torcer para que seja o caso da nossa presidente  que muito da tentao de controlar a internet deriva do total desconhecimento da natureza dessa rede neural que tem na vulnerabilidade uma caracterstica inerente e inseparvel dos benefcios que proporciona. Junte-se  ignorncia de alguns a incapacidade de conviver com a liberdade de outros e tem-se a dimenso do risco que a internet corre. 
     Muitos governos no desistiro do projeto de submeter a internet. Alguns por razes compreensveis, como foi a da presidente Dilma Rousseff, indignada pelo fato de ter sofrido espionagem eletrnica pela Agncia Nacional de Segurana (NSA), dos Estados Unidos. Nem uma longa conversa por telefone com Barack Obama dissuadiu Dilma da convico de que ela e o Brasil foram vtimas de uma inaceitvel agresso digital.  inegvel o clima de pesadelo provocado pelo crescimento exponencial dos ataques cibernticos e pela invaso de arquivos eletrnicos, pblicos e privados, de governos e empresas, do sistema financeiro, das empresas de petrleo, energia eltrica e telecomunicaes. As espionagens que tanto afligem o governo brasileiro so apenas uma das muitas facetas da guerra ciberntica que se globaliza. O volume desses ataques dobra a cada ano desde: 2010. Os alvos da invaso eletrnica no se limitam a governos amigos ou inimigos, mas incluem organizaes polticas e militares, como o Pentgono ou as Foras Armadas de todos os pases, a Nasa, as instituies de pesquisa, o jornal The New York Times, os maiores bancos, o sistema financeiro, as empresas petrolferas ou a infraestrutura de energia. O Brasil j , de longe, o pas latino-americano mais espionado e mais invadido em suas comunicaes e redes digitais. 
     "Nessa rea no existem anjos. Nem os Estados Unidos nem outras potncias", afirma Eric Schmidt, presidente do Google. No  exagero afirmar que o mundo vive hoje uma guerra fria ciberntica. Por seu carter aparentemente inofensivo e incruento, ela foi balizada de cool war, "guerra fresca". Conflito tpico do sculo XXI. Para os cticos  bom lembrar que a rede eltrica dos Estados Unidos sofre atualmente mais de 10.000 ataques por dia. A do Brasil, algumas centenas. So sondas virtuais que identificam as eventuais vulnerabilidades dos sistemas de gerao e distribuio de energia. "A maioria dessas aes maliciosas, entretanto, no tem carter poltico-ideolgico", diz Jaron Lanier, um dos criadores da realidade virtual e autor do livro Who Owns the Future? (A Quem Pertence o Futuro?), um intrigante questionamento sobre os desafios do futuro prximo. Lanier lembra que a vulnerabilidade ciberntica do mundo cresce a cada dia no ritmo do aumento exponencial do que se passou a chamar Big Data, a massa desestruturada de dados e informaes que circula sem freios na internet, passando pelos 6,5 bilhes de celulares com acesso  rede. 
     O Brasil se transformou hoje no principal alvo de criminosos digitais na Amrica Latina. Por ter alcanado a posio de stima economia do planeta, o pas ocupa o primeiro lugar entre as naes latino-americanas mais atingidas, com 50,2% do total de fraudes ou ataques ocorridos em 2011. Em seguida vm a Colmbia, com 24,3%, e o Chile, com 21,4%, segundo pesquisa feita pela RSA e divulgada durante o Congresso e Exposio de Tecnologia da Informao das Instituies Financeiras (Ciab) de 2012. 
     E o nmero de hackers, amadores ou profissionais, cresce sempre mais em todo o mundo na proporo da expanso da internet e dos dispositivos mveis de comunicao. Esses hackers criam e disseminam malwares sempre mais destruidores e perigosos, entre os quais vrus, worms, cavalos de troia e o terrvel Stuxnet, verdadeira arma de guerra digital, utilizada algumas vezes por Israel e pelos Estados Unidos para inibir e destruir, entre outras, as instalaes nucleares srias e iranianas. 
     Se parece desconhecer a natureza mais ntima do funcionamento da internet  do contrrio no daria seu apoio  ideia de submet-la a burocratas da ONU , a presidente Dilma Rousseff sabe bem que ela, como poltica e governante, no pode ignorar a rede. Dilma usou sua conta no Twitter, na sexta-feira passada, para rebater reportagem da revista inglesa The Econornist, que, revertendo sua viso rsea da economia brasileira, ilustrada pela capa de quatro anos atrs em que o Cristo Redentor decolava como um foguete, refez a imagem, tornando a famosa esttua do Rio de Janeiro um busca-p descontrolado e prestes a se estatelar no cho. Escreveu Dilma: "Eles esto desinformados. O dlar se estabilizou, a inflao est sob controle e somos o nico grande pas com pleno emprego. Somos a terceira economia que mais cresceu no mundo no segundo trimestre. Quem aposta contra o Brasil sempre perde". A internet  isso, presidente, livre, aberta, eficiente e til para levar boas mensagens instantaneamente a milhes de pessoas. Ela leva tambm as ruins, mas isso  do jogo. O maior temor  vingarem as tentativas totalitrias de passar o controle da internet a interesses de governantes inimigos da liberdade e de burocratas indiferentes. Nesse trgico cenrio, a rede morreria, e com ela o impacto renovador de esperanas que espalhou pelo mundo. 


8. ISCAS DE POLTICO
Quem eram as mulheres que seduziam prefeitos do Norte e do Centro-Oeste para que cassem no conto dos fundos de investimento, que rendeu  quadrilha 50 milhes de reais.
ALANA RIZZO E BELA MEGALE

     Qualquer um que tenha visitado o Congresso Nacional certamente reparou nelas. Destoando do figurino dominante, as "pastinhas" circulam pelos corredores com saias mnimas, maxissaltos e decotes mesmerizantes. Sua funo  chamar a ateno dos congressistas para convenc-los a incluir sua assinatura em listas de apoio a projetos de lei. Tm sempre uma prancheta na mo e, para guardar as assinaturas colhidas, carregam o acessrio que deu origem ao apelido. Quanto maiores os predicados da pastinha, menor  a ateno que os polticos costumam dar ao teor dos textos. H pouco mais de dez dias, a Polcia Federal desbaratou uma quadrilha que usou a mesma ttica e mo de obra para arrancar, em um ano e meio, 50 milhes de reais de prefeitos distrados. 
     A pastinha Luciane Hoepers  apontada como a arma mais letal do grupo. Catarinense de 33 anos, loira de muitas tatuagens e olhos verdes, ela chegou a atuar em programas de televiso, como um reality show em que declarou sua filosofia de vida: "Nascer pobre  destino, mas morrer pobre  burrice". O destino de Luciane comeou a mudar quando conheceu o doleiro Fayed Traboulsi, de quem se tornou amante em 2012. Com uma carteira de clientes que inclui diversos polticos de Braslia, ele  apontado pela PF como o articulador do esquema. 
     Cabia ao doleiro, alm de comandar o desfalque, arregimentar as mulheres. A maioria chegava a ele por meio de amigos. Cynthia Cabral Soares da Cruz, por exemplo, exceo morena num grupo de loiras,  filha de um conhecido agiota do Distrito Federal. Outra ex-pastinha que, segundo as investigaes, atuava na quadrilha  Fernanda Cardoso. Ela teria entrado para o bando depois de ser apresentada a Fayed por uma assessora do senador Magno Malta (PR-ES), Marta Lana, tambm detida na ao da PF. Todas foram acusadas, entre outras coisas, de crime contra o mercado de capitais, formao de quadrilha e corrupo ativa. 
     As transcries das conversas gravadas pela polcia mostram que a relao entre as beldades de Fayed no era propriamente harmoniosa. Em um dos dilogos, Fernanda sugere ao chefe que Cynthia se veste mal: "Tem que botar ela para comprar roupa". Um pouco antes, o doleiro j havia dado mostras de que tinha perdido a pacincia: "No quero mais fofocas por a. Vamos parar com isso. Pronto e acabou, t?". Completava a equipe a estudante de direito Isabela Barros, de 24 anos, apresentada ao grupo quando fazia um curso sobre fundos de investimento, segundo sua me. 
     A tarefa das meninas de Fayed consistia em convencer prefeitos a investir o dinheiro de fundos municipais de previdncia em fundos de investimento falsamente rentveis indicados por elas  e controlados por cmplices da quadrilha. Obtido o aporte, o grupo retirava a maior parte do dinheiro e deixava o negcio "quebrar". Os fundos municipais amargavam o prejuzo. Ao menos quinze prefeitos, a maioria das regies Norte e Centro-Oeste, se deixaram seduzir pelos encantos das meninas de Fayed e puseram recursos no esquema. Para as primeiras aproximaes, a gangue contava com a intermediao de lobistas que agendavam os encontros com as mulheres. Um deles seria o deputado estadual Samuel Belchior (PMDB-GO). Ele foi flagrado nas gravaes ensinando a Luciane como se portar diante das presas. "Ganha confiana, faz amizade, encontra, conversa e tal. Sempre sabendo qual seu foco principal", diz. "Um poder grande que voc tem  o fsico. Ento, a pessoa s vezes se aproxima de voc primeiro pelo qu? Pela sua beleza, pela pessoa e tal, depois pelas outras coisas. Uma coisa leva a outra." 
     Uma parte dos lucros da quadrilha foi transformada em carros de luxo usados por Fayed: Ferrari, Lamborghini, Porsche, BMW e Mercedes. Mas a vida das pastinhas tambm melhorou ostensivamente. Como conta um fotgrafo que conheceu Luciane no tempo das vacas magras e que a reencontrou recentemente em uma sesso de fotos: "Dava para ver na postura confiante e na bolsa de grife que ela tinha dado um salto na vida". Em maro deste ano, Luciane posou para uma revista masculina do Recife. O ttulo do ensaio era "A gata que balana o mercado financeiro". Na entrevista que acompanhava as fotos, ela falava do seu "trabalho" e descrevia as tatuagens. "Tenho desenhos como drago, lagartixa e aranha, animais peonhentos que ilustram minha fora de personalidade, arte de renovao e mistrios de uma fmea". Muitos pagaram alto para conhecer esses mistrios. Espera-se agora que eles arquem com o preo de ter feito isso com dinheiro alheio. 


